Não serei, claramente, cronológica.
Não pretendo explicar tudo o que foi apresentado, nem reproduzir todas as conversas, ideias e reflexões que atravessaram o GrowTogether. Um dia inteiro dedicado à criança, à parentalidade, ao desenvolvimento e à educação não se organiza assim tão facilmente.
Há ideias que chegam, outras que incomodam, algumas que confirmam caminhos que já percorremos e outras que abrem perguntas novas. É dessas que quero falar.
Fui acompanhada por um painel muito diverso e motivado, feito de profissionais de diferentes áreas, todos a partir de lugares distintos, mas com uma preocupação comum: olhar para a criança como pessoa em desenvolvimento e para os adultos como participantes decisivos desse processo.
E este é sempre o tema que convida todo o meu corpo a escutar.
Vamos regar apenas três sementes.

Primeira semente
A consciência das escolhas
Escutei, repetidamente, a necessidade de trazer consciência às escolhas parentais ou escolares. Não apenas saber o que fazer, mas perceber porque fazemos aquilo que fazemos.
Num tempo em que temos acesso imediato a uma quantidade quase infinita de informação sobre crianças, parentalidade e educação, esta parece-me uma questão cada vez mais importante.
A certa altura, alguém levantou uma questão que me acompanha muitas vezes: o impacto do excesso de informação. Pensei na descontextualização transformada em frases feitas, repetidas como bandeira e, tantas vezes, interpretadas fora do contexto que lhes deu origem: «Pais na bancada», «Educação positiva», «Criança no centro» e tantas outras.
Cuidado. São palavras que nasceram de pensamentos complexos e que podem, quando retiradas do seu contexto, transformar-se em prescrições perigosas. Uma prescrição mal compreendida pode fazer duas coisas: simplificar aquilo que é complexo ou acrescentar culpa a quem, na vida real, não consegue corresponder à versão idealizada de uma ideia.
Muita informação não é literacia. E não acredito que a educação se transforme através de formações rápidas, frases inspiradoras ou conceitos que se aprendem suficientemente depressa para serem repetidos no dia seguinte.
O conhecimento precisa de acompanhamento, de reflexão, de ação e de reformulação. Precisa de estudo. Precisa de tempo. Precisa de profissionais que investiguem, experimentem, observem, regressem à teoria, questionem a própria prática e consigam ajudar outros a fazer esse caminho.
Talvez uma das grandes responsabilidades de quem trabalha com crianças seja precisamente esta: não transformar conhecimento em receita.
Muita informação não é literacia.

Segunda semente
Uma escola pode ser uma comunidade de desenvolvimento humano
Nas palavras do professor José Pacheco, vislumbrei novamente um caminho que me é muito caro: a possibilidade de pensarmos a escola não apenas como o lugar onde se aprende o que está previsto aprender, mas como uma comunidade de desenvolvimento humano.
Fiquei, contudo, com uma ausência. Senti falta de aprofundarmos mais a reflexão sobre as práticas que temos hoje e as práticas de que precisamos para construir uma verdadeira relação colaborativa entre escola e família.
Porque dizer que família e escola devem trabalhar em parceria é relativamente fácil. Construir essa parceria é muito mais difícil. Implica rever linguagens, expectativas, fronteiras, responsabilidades e, sobretudo, relações de poder. Implica que a escola não veja a família apenas como destinatária da sua comunicação. E implica que a família não veja a escola apenas como prestadora de um serviço educativo.
Talvez ainda tenhamos muito caminho a fazer até conseguirmos construir, verdadeiramente, comunidades educativas onde adultos diferentes, com saberes diferentes, possam estar do mesmo lado sem precisarem de ocupar o mesmo lugar.
Terceira semente
Escutar a criança não é reformular o que ela diz, mas também não é abandonar o convite à nossa intervenção
Termino pelo mais querido: a reflexão da nossa educadora Cláudia Almeida. Na mesa sobre «Afinal, o que é Educar Bem em 2026?», Cláudia Almeida esteve lado a lado com Marta Rodrigues, Nuno Pinto Martins e José Pacheco, numa conversa sobre limites, autonomia e os desafios colocados por uma nova geração.
Foi a sua intervenção sobre autonomia versus independência que ficou comigo. Talvez porque, ao seu estilo firme e gentil, trouxe uma distinção que considero essencial. E é na forma como se escuta a liberdade da criança que esta distinção pode acontecer.
Escutar em prol da autonomia é ouvir aquilo que a criança diz e conduzir essa voz até à possibilidade de ter impacto no mundo e, portanto, também na sua própria construção.
É neste encontro de ideias que o meu sorriso brilha. O encontro com alguém que fala de um lugar teórico-prático que conheço: o lugar de um comViver diário, de observar, refletir, provocar, permitir-se o deslumbramento perante o que acontece realmente na construção de uma pessoa que, progressivamente, consegue participar na própria vida.

E então, o que levo daqui?
Levo estas reflexões e muitos outros apontamentos sobre os quais continuarei a refletir e a praticar.
Trago o resgate de uma das responsabilidades que escolhi: continuar a crescer juntos, na consciência de que crescer juntos não é chegarmos todos ao mesmo lugar. É ter a coragem de nos encontrarmos realmente pelo caminho.
